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Notícias

27/10/2025

Expedição ao Parque Nacional das Sempre-Vivas

Autor: Carlos Sanches Começando pelo final Após uma noite estrelada e relativamente amena, amanhece no Campo de São Domingos, região onde se localiza a base de apoio do Parque Nacional das Sempre-Vivas. Numa casa com energia gerada por um sistema solar-eólico (além de um gerador à gasolina), brigadistas, pesquisadores, analistas ambientais do ICMBio e integrantes da equipe do projeto despertam para mais um dia de trabalho em campo. É o quinto e último dia de expedição. A base está localizada num imenso planalto quase plano, coberto por campos rupestres. Ao longe, é possível observar os cumes das montanhas e alguns capões de mata. Nos arredores, encontramos um jardim natural de incrível diversidade biológica e beleza. Nele são encontradas mais de 26 espécies de sempre-vivas. Sempre-vivas é a denominação genérica e popular de plantas da família das eriocauláceas, espécies que produzem inflorescências que mesmo depois de colhidas, destacadas e secas, continuam a apresentar a aparência de estruturas vivas, fechando e abrindo conforme a luminosidade e a umidade do ar. No parque já foram registradas cerca de 60 espécies dessas plantas, sendo oito delas consideradas raras e cinco em perigo de extinção. Esses números tornam a unidade de conservação um centro de diversidade e a área com mais espécies de sempre-vivas do planeta. Com novas pesquisas, mais espécies estão sendo gradativamente descritas (estimativas preveem a existência de mais de 100). Tal relevância acabou por dar nome à unidade de conservação, mas é importante destacar que os campos de sempre-vivas ocupam apenas 2,5% da área total do parque. Fora da área protegida, muitas espécies de sempre-vivas já foram extintas ou se tornaram raras por conta da transformação dos campos onde elas ocorrem em áreas de pastagens para o gado bovino ou em áreas de plantio de eucalipto. O excesso de coleta e os incêndios constantes provocados pelo homem agravam ainda mais a situação. Essa realidade torna o parque um banco genético de fundamental importância para a conservação e para o estudo dessas plantas que guardam ainda inúmeros segredos e relações na dinâmica dos ecossistemas existentes na área. Em meio ao campo de sempre-vivas, bem próximo ainda da base, encontramos a nascente do Rio Jequitaí. No entorno habitam várias espécies de plantas carnívoras. Entre elas, uma planta endêmica que foi descrita pela primeira vez pelo naturalista e botânico Auguste Saint-Hilaire, em 1817. Afastando-se um pouco da base, deparamo-nos com a imponente Serra do Galho. Marcando as coordenadas de viajantes de hoje e de outrora, o Morro do Galho, com seus 1.525 metros de altitude, ponto culminante da serra, destaca-se na paisagem. Nuvens escuras surgem no horizonte, trovoadas longínquas são ouvidas. No início da tarde, uma chuva inesperada marca o momento final da expedição. O dia anterior ao início da expedição Depois de percorrer mais de setecentos quilômetros de estradas, do Rio de Janeiro até Diamantina, a equipe do projeto se reuniu com analistas ambientais do ICMBio para definir os últimos detalhes da expedição. A cidade de Diamantina está localizada a 280 km de Belo Horizonte e apresenta um conjunto arquitetônico de grande importância histórico-cultural. Em 1999, a cidade foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. O primeiro dia de expedição Na manhã seguinte, seguimos até a entrada sul da área protegida. No caminho, passamos por Guinda, Sopa, Morrinhos e São João da Chapada, onde, na saída, deparamo-nos com uma antiga área de garimpo, marcada por valas profundas e terreno bastante degradado. Após percorrermos 70 km, sendo 60 em estradas de terra, chegamos ao vilarejo de Macacos, situado no entorno imediato do parque. Macacos é uma pequena vila que surgiu de uma antiga fazenda de mesmo nome e hoje possui poucos moradores que desfrutam de uma belíssima paisagem. Depois de ultrapassarmos os limites da unidade de conservação, seguimos mais 10 km até chegarmos à base. Mais da metade da área do parque apresenta formações rochosas compostas por quartzitos finos e puros, criando paisagens bastante singulares. Como resultado do processo de corrosão da rocha, os quartzitos acabam por se transformar numa areia muita branca, criando um ambiente propício ao desenvolvimento de sempre-vivas. Formada no período proterozóico, a Serra do Espinhaço, localizada entre os estados de Minas Gerais e da Bahia, é considerada a única cordilheira brasileira e possui mais de 1000 km de extensão. Hoje, depois de milhões e milhões de anos, a cordilheira se transformou num imponente planalto com até 100 km de largura marcado por montanhas antigas, cânions e escarpas erodidas. A Serra do Espinhaço possui enorme biodiversidade, apresentando alto grau de endemismo. Por conta disso, em 1999, a serra foi declarada pela UNESCO como Reserva da Biosfera. O Parque Nacional das Sempre-Vivas está localizado está localizado no seu trecho meridional e é a maior área de proteção integral da reserva com 124.154,47 hectares, abrangendo áreas dos municípios de Diamantina, Bocaiúva, Olhos d’Água e Buenópolis. Após explorarmos o entorno da base no período da manhã, seguimos até uma área próxima ao Morro Redondo, onde o Rio Jequitaí forma uma série de lagoas. Afluente do Rio São Francisco, o Rio Jequitaí é cenário de algumas passagens do romance Grande Sertão: Veredas, do escritor mineiro João Guimarães Rosa. Dali, seguimos para outra localidade do parque, uma região montanhosa onde o Rio Inhaí apresenta uma série de cachoeiras. O Inhaí é um afluente do Rio Jequitinhonha. Depois de conhecer esse belo lugar, retornamos à base do parque. O segundo dia No segundo do dia, a equipe recebeu o incremento de um brigadista e guia local. Depois de um trecho no 4X4, seguimos a pé através de uma região campestre e brejosa, cercada por morros bastante erodidos. Chegamos ao sopé de um deles com características peculiares. Mesmo à grande distância, podíamos observar uma reentrância que se destacava. Ao seguirmos por uma trilha íngreme, em meio a pedras pontiagudas, deparamo-nos com uma lapa bastante conservada, sem marcas de ocupação humana recente. Na sequência, continuando a trilha, chegamos a um outdoor pré-histórico impressionante. Na rocha brilhante da montanha, desenhos milenares de animais e figuras abstratas. Veados, gatos selvagens, antas, pacas, várias espécies estavam ali registradas. Em todo o imenso vale, só ali havia registros desse tipo. A forma como estão expostos, bem de frente para o vale, sugere que foram produzidos justamente para permitir a observação à grande distância. Qual seriam as motivações por trás disso? Com certeza possuíam um objetivo muito específico para aquela sociedade. Depois dessa viagem no tempo retornamos a Diamantina. O terceiro dia No dia seguinte, seguimos para o Distrito de Curimataí, passando por diversas cancelas até chegarmos à comunidade de Santa Rita, onde encontramos um ex-brigadista e produtor rural. Após percorrermos um pequeno trecho íngreme, chegamos à borda de um vale. Caminhamos por uma trilha pedregosa até alcançarmos um penhasco de extrema beleza onde já podíamos vislumbrar o Rio Preto. Descemos por uma fenda vertical na encosta escarpada até chegar a uma mata de galeria fechada e espinhosa. Apesar de alguma dificuldade, logo encontramos a beira do rio. Subimos mais algumas pedras e nos deparamos com uma cachoeira majestosa: a Cachoeira do Rio Preto ou Cachoeira de Santa Rita. Neste local, a água do rio caía poderosamente do alto de mais de 60 metros, formando uma enorme piscina de água escura e gelada. Ficamos lá por mais de duas horas tentando descrever com alguma exatidão a dimensão e a beleza dessa cachoeira, que com certeza está entre as mais belas do país. O parque é um divisor de águas de duas importantes bacias hidrográficas: a do Rio São Francisco e a do Rio Jequitinhonha. Dos planaltos do parque nascem mais de 600 nascentes, formando córregos, rios, cavando cânions e presenteando os visitantes com cachoeiras lindíssimas. Uma informação interessante é que todos os rios e córregos que correm pelo parque nascem no seu interior. Não há rio ali que venha de fora da área protegida. Assim, as águas do parque garantem água de primeiríssima qualidade para as comunidades e cidades do entorno. E mais, como parte significativa da Serra do Espinhaço, contribui ainda com a água que mata a sede de 50 milhões de brasileiros. O quarto dia Seguimos em direção à região central do parque, na localidade conhecida como Fazenda Arrenegado, considerada a área mais conservada da unidade de conservação. No caminho nos deparamos com várias pegadas. Por conta da caça, muitas espécies foram extintas da região (como o veado galheiro e a ema, por exemplo). Outras se tornaram extremamente ariscas, mudando profundamente os seus hábitos. Algumas até se tornaram totalmente noturnas por conta disso. Ainda assim, o parque apresenta uma fauna considerável com várias espécies ameaçadas de extinção. Nos locais onde se depositam os areais de quartzito é possível ter uma ideia sobre a mastofauna local. No caminho encontramos pegadas de várias espécies, entre elas: o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), a anta (Tapirus terrestris), o gato do mato (Leopardus tigrinus), o cachorro do mato (Cerdocyon thous), o veado catingueiro (Mazama gouazoubira), entre outras. Embora não avistadas nessa curta expedição (nem as suas pegadas), na região é possível encontrar onças-pardas (Puma concolor) e existem relatos e imagens de câmeras trap da presença da onça-pintada (Panthera onca). Outros animais registrados por aqui são o tatu-canastra (Priodontes maximus), o tamanduá-bandeira (Myrmocophaga tridactyla), o caititu (Dicotyles tajacu), a jaritataca (Conepatus semistriatus), o mocó (Kerodon acrobata) e cinco espécies de primatas. No parque podemos avistar mais de 200 espécies de aves, entre elas o imponente urubu-rei (Sarcoramphus papa), observado comendo uma carniça no dia anterior. E várias espécies de serpentes e anfíbios, alguns endêmicos da região. Nesse mesmo trajeto tivemos a oportunidade de conhecer um pouco sobre os tipos de vegetação do parque. A região  possui características excepcionais, sendo considerada um ecótono (uma área de transição) dentro do bioma cerrado, com forte  influência de dois outros biomas: a Mata Atlântica e a Caatinga. O mandacaru é um exemplo disso. Espécie característica da caatinga, esse cacto tem na região do parque a sua área mais meridional de distribuição. A maior parte do parque é composta por uma fitofisionomia (tipo de vegetação) denominada complexo rupestre de altitude de origem quartzítica, nela se destacam os campos graminosos onde ocorrem as sempre-vivas. Nas áreas mais úmidas desse complexo se formam as matas de galeria e os capões de mata. Nas vertentes do sudoeste da unidade de conservação é possível encontrar florestas estacionais semideciduais. Mais ao norte encontramos a mata seca e, dependendo das diferentes profundidades do solo, podemos observar variadas formações de cerrado. Do mirante do Arrenegado vislumbramos uma das paisagens mais impressionantes do país. Preservando um dos trechos mais importantes da Serra do Espinhaço, o parque guarda os segredos da história do planeta e apresenta peculiaridades ecológicas exemplares. É o habitat de espécies da fauna e da flora desconhecidas, raras e ameaçadas, e garante água de qualidade para diversas comunidades e cidades. Apresenta ainda memórias de diferentes períodos da pré-história e da história, incluindo aí registros de naturalistas e cientistas como Auguste Saint-Hilaire, Martius, Spix, Gardner e Eschwege, além de histórias e memórias de um passado recente das comunidades locais. Assim, o parque é ao mesmo tempo um patrimônio das comunidades do entorno, dos municípios próximos, e, do estado de Minas Gerais. Sendo parque nacional é patrimônio de todos os brasileiros. E, além disso tudo, o parque, como parte da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, é também uma área de relevante interesse para toda a humanidade.

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27/10/2025

Os Parques Nacionais e a História da Biodiversidade

Autor: Carlos Sanches Além de proteger a biodiversidade e disponibilizar uma série de serviços ambientais, os parques nacionais guardam no seu interior registros de vários períodos da história da vida na Terra. Cada unidade de conservação é como um livro imenso aguardando sob a ação das intempéries por alguém que possa ler em suas páginas um número quase infinito de histórias e informações. As áreas protegidas disponibilizam a ambientação perfeita para o entendimento de várias passagens da história da Terra, das espécies, dos lugares, dos países e das pessoas. São museus de história viva, espaços do conhecimento, lugares da educação e do entretenimento. São muitas as páginas que podem ser reveladas e de diferentes maneiras. Um mesmo lugar pode apresentar várias delas, basta evidenciá-las. Cada montanha, cada vale traz em si a sua própria história e parte da história do planeta. Alguns desses lugares trazem mais de um bilhão de anos de histórias, outras carregam no seu bojo fragmentos de espécies extintas. Outros nos surpreendem com vestígios inusitados de um oceano nas alturas, de pinturas milenares ou até de ruínas de cidades esquecidas. Neles podemos conhecer as mudanças do clima, o lento e contínuo movimento dos continentes, a evolução da vida, os sinais de povos antigos e a nossa própria cultura. É sempre bom lembrar que o estudo da história da biodiversidade é sobretudo o estudo da nossa própria história enquanto espécie. Estudar a biodiversidade é como construir uma árvore genealógica da nossa família e ter durante o processo a surpresa e o prazer de descobrir aquele parente distante que até então não conhecíamos

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27/10/2025

Expedição ao Parque Nacional da Serra da Bodoquena

Autor: Carlos Sanches   Saindo do Aeroporto de Campo Grande numa van de linha, após 4 horas de viagem e quase 300 km, passando pela bela Serra de Maracaju (hoje um Monumento Natural Municipal), chegamos à Bonito. Criado em 2000, o Parque Nacional da Serra da Bodoquena protege uma área de grande singularidade geológica, com uma biodiversidade ainda não inteiramente conhecida. Possui 77.021,58 hectares divididos em dois fragmentos: um ao sul e outro ao norte. Abrange áreas de quatro municípios: Bonito, Bodoquena, Jardim e Porto Murtinho É um parque nacional de singular beleza, localizado numa das áreas cársticas contínuas mais extensas do Brasil, apresentando um labirinto de rios de cor turquesa, cânions, cachoeiras, florestas, brejos, lagoas e um sistema de cavernas inundadas. De grande importância biológica, o parque é a única unidade de conservação de proteção integral federal localizada exclusivamente no estado do Mato Grosso do Sul. Faz parte das áreas núcleo de duas Reservas da Biosfera: a do Pantanal (2000) e a da Mata Atlântica (incluída em 2001). Também está inserida no projeto do Geoparque Pantanal Bodoquena. Tem tudo para ser um dos destinos de ecoturismo mais impressionantes do estado.   O primeiro dia da expedição Na companhia de um analista ambiental do parque e grande conhecedor da unidade de conservação, saímos cedo de Bonito. Um brigadista também participou da atividade. O clima estava instável e seguimos num veículo 4X4 em direção ao fragmento norte da unidade. Para chegarmos ao parque, atravessamos um trecho da Fazenda Remanso até a Fazenda Santa Laura. A estrada muito pedregosa estava bastante ruim. Deixamos o carro numa clareira e seguimos a pé ainda pela estrada de terra. Atravessamos um belo trecho do Rio Salobra e, através de uma pequena trilha, chegamos ao futuro balneário do mesmo rio (antiga sede da fazenda), um poço grande e belo cercado por mata. O Rio Salobra é o principal curso d’água desse fragmento e um importante tributário do Rio Miranda, que abastece o sul do Pantanal. Nuvens cinzentas marcavam o horizonte e decidimos seguir até o futuro mirante no alto do Morro do Boi, de onde teríamos uma visão ampla de uma parte do parque. A trilha alternava trechos de capim alto (colonião) e trechos de mata seca (Floresta Estacional Decidual Submontana), numa área em processo de regeneração. A subida é cansativa por conta do mato espinhoso, do terreno pedregoso e da declividade acentuada da trilha, que às vezes desaparecia completamente. Num determinado momento, tivemos que fazer uma pausa para esperar a passagem da chuva. O esforço é recompensado não somente pela vista exuberante, mas por conta de o Morro do Boi apresentar no seu topo um incrível campo de lapiás. Todo o afloramento rochoso do morro e de morros adjacentes se apresenta como se houvesse sido “fatiado”, produzindo uma série de gigantescas lâminas afiadas, com sulcos profundos entre uma lâmina e outra. Esse ambiente incrível apresenta ainda uma vegetação arbustiva retorcida, muitos cactos e várias bromélias. Os lapiás são formações típicas de relevos cársticos, produzidos através da dissolução progressiva e superficial das rochas calcárias. Tivemos a sorte de o tempo firmar lá em cima e conseguimos fazer algumas belas imagens desse lugar fantástico. A descida foi mais rápida do que a subida e logo chegamos de volta ao Balneário do Rio Salobra. Avistamos uma capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), que desapareceu rapidamente sem que conseguíssemos registrá-la. Uma arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) passou voando baixo em velocidade. Conseguimos fotografar e gravar somente as araras-vermelhas (Ara chloropterus), muito comuns na região inteira. Assim encerramos o primeiro dia da expedição, num parque marcado e forjado pela relação da água com a rocha, uma elevação isolada em meio a uma imensa planície, uma ilha de floresta no meio do cerrado. O segundo dia A relação da água com a rocha sedimentar é o que caracteriza a paisagem da Serra da Bodoquena. A água da chuva dissolve a rocha devido a reação química entre o ácido carbônico (que vem com a chuva) e o carbonato de cálcio (da pedra). Esse fenômeno permite o desenvolvimento de vários relevos cársticos típicos, como os que o parque apresenta. A palavra carste é empregada para designar áreas calcárias e dolomíticas que possuem uma aparência construída através da dissolução química ou física da própria rocha. Segundo os geólogos, a Serra do Bodoquena já foi o fundo de um oceano. Nele foram depositadas camadas e mais camadas de organismos (recifes de coral, por exemplo) que, com o passar de milhões de anos, acabaram por formar rochas compostas por sedimentos. Com a movimentação dos continentes a aproximadamente 520 milhões de anos, o solo desse oceano foi dobrado e se transformou numa vertiginosa cadeia de montanhas. Daquele período até o presente, os processos erosivos atuaram implacavelmente sobre essa linha montanhosa, transformando-a na serra que conhecemos hoje. Em paralelo a esse fenômeno, surgiu a bacia do pantanal, que continua se deslocando para baixo. Mas isso já é outra história. No segundo dia, a equipe do projeto foi conduzida por outro analista ambiental, com a participação de um brigadista. Desta vez seguimos para o fragmento sul. Mais uma vez, passamos por entre fazendas e bois, chegando ao local onde será estabelecida a futura sede do parque e onde se encontram alguns dos seus mais impressionantes atrativos. Logo que descemos do carro, tivemos a surpresa de nos deparar com uma poderosa anta macho (Tapirus terrestris) que atravessou a estrada de terra e se embrenhou no meio da mata. Nesse ponto, um deck nos leva a conhecer o Sumidouro, um lugar no mínimo surpreendente. Nele, o Rio Perdido desagua num lago através de uma bela cachoeira e desaparece por uma caverna subaquática. O ambiente é tão impressionante que parece que foi esculpido artificialmente por um artista hollywoodiano. O Rio Perdido corta boa parte do fragmento sul do parque criando uma série de ambientes. Em determinado trecho ele corre como um rio qualquer, mas logo depois ele desaparece e corre para debaixo da terra. Ressurge aparentemente do nada e segue adiante. Em outro ponto, ele se transforma num imenso brejo, noutros ele cria canais paralelos. Pelo caminho ele vai cortando desfiladeiros, criando cachoeiras de inusitada beleza, lagoas paradisíacos e cavernas misteriosas. Sem dúvida, é um dos rios mais criativos do Brasil. Sem um mapa, ou um guia experiente, é quase impossível segui-lo. Depois de fotografarmos e gravarmos imagens do Sumidouro, enveredemos por uma trilha que segue literalmente por cima do rio até chegar num ponto onde ele ressurge. No caminho esse rio mágico vai se transformando e recriando as imagens que o cercam. Numa hora ele apresenta corredeiras, noutra ele segue tranquilo. Pelo caminho avistamos várias aves e um teiú (Tupinambis merianae). Na outra margem do rio, existe uma pequena trilha. Dizem que esta trilha é muito utilizada por uma onça-pintada, que possui uma toca ali por perto e que vai ao rio beber água e se refrescar. Nós não a vimos, mas logo na chegada sentimos o odor forte de um mamífero de grande porte. Retornamos para nos aventurar por outra faceta do rio. No início da trilha, antes de ele cair e desaparecer no Sumidouro, o rio tem a forma de um brejo extenso com algumas lagoas. Na verdade, dizem que esse brejo é a nascente do rio. Com o barco inflável do parque, entramos nesse alagado e, mais uma vez, deparamo-nos com uma cena incrível, que, aliás, imperdoavelmente deixamos de registrar. Já dentro da água, com a câmera protegida num saco impermeável, atravessamos o brejo e depois de passar por uma touceira de capim navalha, entramos numa das lagoas citadas. Para a nossa surpresa (e a do bicho) demos de cara com uma enorme anta nadando, provavelmente a mesma que vimos na chegada. Antes de conseguirmos tirar a câmera do saco, a anta fugiu e ficamos sem a imagem (que da memória não vai desaparecer nunca). Nesta área de banhado do Rio Perdido se formam várias lagoas com águas cristalinas, ambiente habitado não somente pela anta, mas também pelo cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), a impressionante sucuri (Eunectes murinus), além de vários outros animais. Mas o dia não havia acabado ainda. Seguimos para outro ponto do parque na divisa dele com uma RPPN estadual: a Reserva do Saci. Para chegarmos lá passamos por uma área de floresta bastante conservada. Um empregado da fazenda onde fica a RPPN toma conta da reserva e mora numa casa de madeira erguida no alto, sobre troncos. Em poucos minutos, o homem nos contou pelo menos duas histórias de onça. Falou da visita de uma onça-parda (Puma concolor) que foi até a janela da casa e ficou olhando para ele (segundo ele, essa onça mora numa toca ali perto). Contou também sobre a luta de uma anta para tentar se desvencilhar do mortal ataque de uma onça-pintada (Panthera onca). Aliás, na história, ele chegou a conversar com a onça e pediu para que ela soltasse a anta com vida, mas parece que a onça não atendeu o seu pedido. Depois desse momento de contação de histórias, seguimos por uma pequena trilha até o Córrego Taquaral, num ponto onde é possível observar uma das mais belas cachoeiras do parque. No caminho de volta ainda conseguimos fotografar mais um casal de araras vermelhas. O terceiro dia Seguimos para outro ponto do Rio Perdido, 25 km abaixo do primeiro (Sumidouro-Ressurgência), numa região de difícil acesso. Após passarmos por algumas porteiras e munidos de caneleiras e GPS (além de um facão) iniciamos uma trilha que sai do fundo de uma fazenda, numa área de pasto que está agora em regeneração. No caminho, alternávamos trechos de capim alto com áreas de floresta, até chegarmos a um dos canais do Rio Perdido. A partir daí seguimos por dentro de uma mata ciliar quase intransponível (Floresta Estacional Decidual Aluvial), composta por árvores baixas, muitos arbustos espinhosos, trepadeiras e um terreno úmido com serapilheira densa. Não havia trilha e a movimentação era extremamente lenta e difícil. Picados por marimbondos e arranhados, chegamos a um trecho onde era quase impossível prosseguir. Decidimos então seguir por um dos canais do Perdido e aí a situação melhorou bastante. A água do rio não era gelada nem quente. Seguir por ele foi extremamente prazeroso. Encontramos até um colibri dormindo num galho no meio do rio. Após algumas centenas de metros, encontramos uma trilha e chegamos ao nosso objetivo daquele dia: o Cachoeirão do Perdido. Neste ponto o rio apresenta uma série de belíssimas cachoeiras e um lago paradisíaco. Esse trecho do rio também é marcado pelas tufas calcárias, que apesar de estarem presentes em vários dos pontos antes visitados pela expedição, naquele lugar em especial, as tufas criaram uma paisagem muito peculiar, embora bastante frágil. Quando a água rica em carbonato de cálcio flui na atmosfera ocorre a liberação do gás carbônico. O material resultante desse processo se precipita e forma uma rocha calcária bastante porosa e quebradiça. Essa grande presença de tufas no planalto da Bodoquena o distingue das demais áreas cársticas do Brasil, tornando-o único. Além dessa especificidade estética, as tufas são importantes para estudos climáticos, hídricos e paleontológicos, já que nelas é possível encontrar vários registros fósseis. Esse lugar especial é cercado por uma floresta luxuriante, com árvores frondosas – uma mata considerada primária. Pena que a aproximação da chuva acabou por acelerar o nosso retorno. Os três dias de expedição até então haviam revelado um parque muito especial, com uma importância extraordinária. A unidade de conservação (bem como toda a Serra da Bodoquena) funciona como uma grande superfície de captação e armazenamento de água das chuvas, alimentando através dos seus rios perenes (mesmo na seca) a bacia do Rio Paraguai e o Pantanal. Além disso, o parque é morada de inúmeras espécies ameaçadas de extinção. Nas suas trilhas, tivemos a oportunidade de encontrar antas, tamanduás-bandeiras (Myrmecophaga tridactyla), quatis (Nasua nasua), cachorros do mato (Cerdocyon thous), mutum-de-penacho (Crax fasciolata), seriemas (Cariama cristata), entre outros animais. Nas rápidas conversas com alguns empregados das fazendas, ouvimos várias histórias de onças (tanto da parda quanto da pintada). O parque é morada ainda de harpias (Harpia harpyja), queixadas (Tayassu pecari), gatos-palheiros (Leopardus colocolo), cachorros-vinagres (Speothos venaticus), entre várias outras espécies. São mais de 300 espécies de aves, quase uma centena de mamíferos, 38 de anfíbios e 25 de répteis. Com certeza, novos estudos aumentarão esses números e revelarão novos fatos e espécies ainda desconhecidas pela ciência. O quarto dia Na manhã seguinte, após três dias de esforço físico considerável, seguimos para um ponto fronteiriço, um lugar que serve de conexão entre o parque e a Terra Indígena Kadiwéu. Com mais de 538 mil hectares, interligando as florestas da serra, o Cerrado e o Pantanal, a TI abriga quatro aldeias, três da etnia Kadiwéu e uma da etnia Terena. De Bonito até lá são quase duas horas de viagem. A maioria das áreas do parque é de difícil acesso, com acentuada declividade, mas abriga hoje quase vinte e sete por cento da área remanescente de florestas de todo o estado do Mato Grosso do Sul e conecta áreas naturais importantes. Como já foi dito, é uma espécie de caixa d’água e importante contribuinte hídrico para o sul do Pantanal. Abriga uma rica biodiversidade, boa parte dela ainda não estudada ou conhecida, e, apresenta um sistema de cavernas inundadas ainda pouco explorado. Voltando ao momento final da expedição, após um longo trajeto rodoviário, olhando do alto uma planície que se perde no horizonte, marcada por esparsos e imponentes chapadões. Uma paisagem de tirar o fôlego: a fronteira da ilha de floresta da Serra da Bodoquena com o cerrado, mais um lugar deslumbrante desse pedaço impressionante do país.

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18/09/2025

A Megabiodiversidade Brasileira e o Audiovisual

Autor: Carlos Sanches   A cada ano, estudos em diferentes regiões do país incluem novas espécies a já extensa lista da fauna e da flora brasileiras. Até o presente já foram identificadas 125.076 espécies de animais, incluindo 775 de mamíferos (SBMz, 2023), 1971 de aves (CBRO, 2023), 1188 de anfíbios (SBH, 2023), 850 de répteis (SBH, 2023) e mais de 90.000 de insetos. São 52.109 espécies de plantas e fungos identificadas (JBRJ, 2023). Esses números que incluem muitas espécies endêmicas colocam o Brasil em primeiro lugar entre os países megabiodiversos. O conceito de megabiodiversidade é baseado no número total de espécies em um país e no grau de endemismo no nível de espécies e em níveis taxonômicos mais altos. Em julho de 2000, o World Conservation Monitoring Centre reconheceu 17 países megabiodiversos: Brasil, Austrália, China, Colômbia, República Democrática do Congo (RDC), Equador, Índia, Indonésia, Madagascar, Malásia, México, Papua Nova Guiné, Peru, Filipinas, África do Sul, Estados Unidos e Venezuela. Juntos esses países abrigam 70% das espécies da Terra. A enorme diversidade biológica do Brasil se deve não só à sua dimensão continental, mas principalmente devido a sua diversidade de biomas e ecossistemas terrestres e marinhos. Não foi à toa que a Convenção da Diversidade Biológica (CDB) foi assinada no Brasil durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92. Trinta e um anos depois, o Brasil se encontra em plena retomada da agenda ambiental, após a crise sanitária promovida pela Covid 19 e em meio a um período marcado por três grandes crises sistemáticas: a da biodiversidade, a da degradação da Terra e a das mudanças climáticas. Todas essas crises se entrelaçam dentro de um mesmo processo e pedem ações de proteção dos ecossistemas naturais e da biodiversidade. Uma dessas ações é a implementação de unidades de conservação, principalmente as de proteção integral, que não permitem o uso direto dos recursos naturais existentes em seus limites. Apesar dos crescentes esforços institucionais ocorridos neste século, o Brasil protege integralmente somente 6,04% do seu território terrestre e 3,31% do seu ambiente marinho (CNUC, 2023). Diante do desafio de promover essa enorme diversidade biológica e de apoiar as ações para a sua conservação, o audiovisual surge como um dos principais instrumentos para isso. Presente através das telas do cinema, da TV e dos computadores, ganha ainda mais espaço na vida das pessoas por meio dos celulares. Ainda assim, o espaço de tela preenchido por produções audiovisuais desse tipo ainda é muito pequeno. Não por falta de popularidade, já que os documentários de natureza são bastante populares. A série “Nosso Planeta” da Netflix foi uma das produções de maior audiência do canal em 2019. O resultado se repete com outras produções do gênero. A natureza brasileira ainda aparece pouco nas telas do mundo e do próprio país. Está na hora de mudar isso.

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