Expedição ao Parque Nacional das Sempre-Vivas

Autor: Carlos Sanches

Começando pelo final

Após uma noite estrelada e relativamente amena, amanhece no Campo de São Domingos, região onde se localiza a base de apoio do Parque Nacional das Sempre-Vivas. Numa casa com energia gerada por um sistema solar-eólico (além de um gerador à gasolina), brigadistas, pesquisadores, analistas ambientais do ICMBio e integrantes da equipe do projeto despertam para mais um dia de trabalho em campo. É o quinto e último dia de expedição.

A base está localizada num imenso planalto quase plano, coberto por campos rupestres. Ao longe, é possível observar os cumes das montanhas e alguns capões de mata. Nos arredores, encontramos um jardim natural de incrível diversidade biológica e beleza. Nele são encontradas mais de 26 espécies de sempre-vivas.

Sempre-vivas é a denominação genérica e popular de plantas da família das eriocauláceas, espécies que produzem inflorescências que mesmo depois de colhidas, destacadas e secas, continuam a apresentar a aparência de estruturas vivas, fechando e abrindo conforme a luminosidade e a umidade do ar.

No parque já foram registradas cerca de 60 espécies dessas plantas, sendo oito delas consideradas raras e cinco em perigo de extinção. Esses números tornam a unidade de conservação um centro de diversidade e a área com mais espécies de sempre-vivas do planeta. Com novas pesquisas, mais espécies estão sendo gradativamente descritas (estimativas preveem a existência de mais de 100). Tal relevância acabou por dar nome à unidade de conservação, mas é importante destacar que os campos de sempre-vivas ocupam apenas 2,5% da área total do parque.

Fora da área protegida, muitas espécies de sempre-vivas já foram extintas ou se tornaram raras por conta da transformação dos campos onde elas ocorrem em áreas de pastagens para o gado bovino ou em áreas de plantio de eucalipto. O excesso de coleta e os incêndios constantes provocados pelo homem agravam ainda mais a situação. Essa realidade torna o parque um banco genético de fundamental importância para a conservação e para o estudo dessas plantas que guardam ainda inúmeros segredos e relações na dinâmica dos ecossistemas existentes na área.

Em meio ao campo de sempre-vivas, bem próximo ainda da base, encontramos a nascente do Rio Jequitaí. No entorno habitam várias espécies de plantas carnívoras. Entre elas, uma planta endêmica que foi descrita pela primeira vez pelo naturalista e botânico Auguste Saint-Hilaire, em 1817.

Afastando-se um pouco da base, deparamo-nos com a imponente Serra do Galho. Marcando as coordenadas de viajantes de hoje e de outrora, o Morro do Galho, com seus 1.525 metros de altitude, ponto culminante da serra, destaca-se na paisagem.

Nuvens escuras surgem no horizonte, trovoadas longínquas são ouvidas. No início da tarde, uma chuva inesperada marca o momento final da expedição.

O dia anterior ao início da expedição

Depois de percorrer mais de setecentos quilômetros de estradas, do Rio de Janeiro até Diamantina, a equipe do projeto se reuniu com analistas ambientais do ICMBio para definir os últimos detalhes da expedição.

A cidade de Diamantina está localizada a 280 km de Belo Horizonte e apresenta um conjunto arquitetônico de grande importância histórico-cultural. Em 1999, a cidade foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.

O primeiro dia de expedição

Na manhã seguinte, seguimos até a entrada sul da área protegida. No caminho, passamos por Guinda, Sopa, Morrinhos e São João da Chapada, onde, na saída, deparamo-nos com uma antiga área de garimpo, marcada por valas profundas e terreno bastante degradado.

Após percorrermos 70 km, sendo 60 em estradas de terra, chegamos ao vilarejo de Macacos, situado no entorno imediato do parque. Macacos é uma pequena vila que surgiu de uma antiga fazenda de mesmo nome e hoje possui poucos moradores que desfrutam de uma belíssima paisagem.

Depois de ultrapassarmos os limites da unidade de conservação, seguimos mais 10 km até chegarmos à base. Mais da metade da área do parque apresenta formações rochosas compostas por quartzitos finos e puros, criando paisagens bastante singulares. Como resultado do processo de corrosão da rocha, os quartzitos acabam por se transformar numa areia muita branca, criando um ambiente propício ao desenvolvimento de sempre-vivas.

Formada no período proterozóico, a Serra do Espinhaço, localizada entre os estados de Minas Gerais e da Bahia, é considerada a única cordilheira brasileira e possui mais de 1000 km de extensão. Hoje, depois de milhões e milhões de anos, a cordilheira se transformou num imponente planalto com até 100 km de largura marcado por montanhas antigas, cânions e escarpas erodidas.

A Serra do Espinhaço possui enorme biodiversidade, apresentando alto grau de endemismo. Por conta disso, em 1999, a serra foi declarada pela UNESCO como Reserva da Biosfera. O Parque Nacional das Sempre-Vivas está localizado está localizado no seu trecho meridional e é a maior área de proteção integral da reserva com 124.154,47 hectares, abrangendo áreas dos municípios de Diamantina, Bocaiúva, Olhos d’Água e Buenópolis.

Após explorarmos o entorno da base no período da manhã, seguimos até uma área próxima ao Morro Redondo, onde o Rio Jequitaí forma uma série de lagoas. Afluente do Rio São Francisco, o Rio Jequitaí é cenário de algumas passagens do romance Grande Sertão: Veredas, do escritor mineiro João Guimarães Rosa.

Dali, seguimos para outra localidade do parque, uma região montanhosa onde o Rio Inhaí apresenta uma série de cachoeiras. O Inhaí é um afluente do Rio Jequitinhonha.

Depois de conhecer esse belo lugar, retornamos à base do parque.

O segundo dia

No segundo do dia, a equipe recebeu o incremento de um brigadista e guia local. Depois de um trecho no 4X4, seguimos a pé através de uma região campestre e brejosa, cercada por morros bastante erodidos.

Chegamos ao sopé de um deles com características peculiares. Mesmo à grande distância, podíamos observar uma reentrância que se destacava. Ao seguirmos por uma trilha íngreme, em meio a pedras pontiagudas, deparamo-nos com uma lapa bastante conservada, sem marcas de ocupação humana recente.

Na sequência, continuando a trilha, chegamos a um outdoor pré-histórico impressionante.

Na rocha brilhante da montanha, desenhos milenares de animais e figuras abstratas. Veados, gatos selvagens, antas, pacas, várias espécies estavam ali registradas. Em todo o imenso vale, só ali havia registros desse tipo.

A forma como estão expostos, bem de frente para o vale, sugere que foram produzidos justamente para permitir a observação à grande distância. Qual seriam as motivações por trás disso? Com certeza possuíam um objetivo muito específico para aquela sociedade.

Depois dessa viagem no tempo retornamos a Diamantina.

O terceiro dia

No dia seguinte, seguimos para o Distrito de Curimataí, passando por diversas cancelas até chegarmos à comunidade de Santa Rita, onde encontramos um ex-brigadista e produtor rural. Após percorrermos um pequeno trecho íngreme, chegamos à borda de um vale.

Caminhamos por uma trilha pedregosa até alcançarmos um penhasco de extrema beleza onde já podíamos vislumbrar o Rio Preto. Descemos por uma fenda vertical na encosta escarpada até chegar a uma mata de galeria fechada e espinhosa. Apesar de alguma dificuldade, logo encontramos a beira do rio.

Subimos mais algumas pedras e nos deparamos com uma cachoeira majestosa: a Cachoeira do Rio Preto ou Cachoeira de Santa Rita.

Neste local, a água do rio caía poderosamente do alto de mais de 60 metros, formando uma enorme piscina de água escura e gelada. Ficamos lá por mais de duas horas tentando descrever com alguma exatidão a dimensão e a beleza dessa cachoeira, que com certeza está entre as mais belas do país.

O parque é um divisor de águas de duas importantes bacias hidrográficas: a do Rio São Francisco e a do Rio Jequitinhonha. Dos planaltos do parque nascem mais de 600 nascentes, formando córregos, rios, cavando cânions e presenteando os visitantes com cachoeiras lindíssimas.

Uma informação interessante é que todos os rios e córregos que correm pelo parque nascem no seu interior. Não há rio ali que venha de fora da área protegida. Assim, as águas do parque garantem água de primeiríssima qualidade para as comunidades e cidades do entorno. E mais, como parte significativa da Serra do Espinhaço, contribui ainda com a água que mata a sede de 50 milhões de brasileiros.

O quarto dia

Seguimos em direção à região central do parque, na localidade conhecida como Fazenda Arrenegado, considerada a área mais conservada da unidade de conservação. No caminho nos deparamos com várias pegadas. Por conta da caça, muitas espécies foram extintas da região (como o veado galheiro e a ema, por exemplo). Outras se tornaram extremamente ariscas, mudando profundamente os seus hábitos. Algumas até se tornaram totalmente noturnas por conta disso. Ainda assim, o parque apresenta uma fauna considerável com várias espécies ameaçadas de extinção.

Nos locais onde se depositam os areais de quartzito é possível ter uma ideia sobre a mastofauna local. No caminho encontramos pegadas de várias espécies, entre elas: o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), a anta (Tapirus terrestris), o gato do mato (Leopardus tigrinus), o cachorro do mato (Cerdocyon thous), o veado catingueiro (Mazama gouazoubira), entre outras.

Embora não avistadas nessa curta expedição (nem as suas pegadas), na região é possível encontrar onças-pardas (Puma concolor) e existem relatos e imagens de câmeras trap da presença da onça-pintada (Panthera onca). Outros animais registrados por aqui são o tatu-canastra (Priodontes maximus), o tamanduá-bandeira (Myrmocophaga tridactyla), o caititu (Dicotyles tajacu), a jaritataca (Conepatus semistriatus), o mocó (Kerodon acrobata) e cinco espécies de primatas.

No parque podemos avistar mais de 200 espécies de aves, entre elas o imponente urubu-rei (Sarcoramphus papa), observado comendo uma carniça no dia anterior. E várias espécies de serpentes e anfíbios, alguns endêmicos da região.

Nesse mesmo trajeto tivemos a oportunidade de conhecer um pouco sobre os tipos de vegetação do parque. A região  possui características excepcionais, sendo considerada um ecótono (uma área de transição) dentro do bioma cerrado, com forte  influência de dois outros biomas: a Mata Atlântica e a Caatinga. O mandacaru é um exemplo disso. Espécie característica da caatinga, esse cacto tem na região do parque a sua área mais meridional de distribuição.

A maior parte do parque é composta por uma fitofisionomia (tipo de vegetação) denominada complexo rupestre de altitude de origem quartzítica, nela se destacam os campos graminosos onde ocorrem as sempre-vivas. Nas áreas mais úmidas desse complexo se formam as matas de galeria e os capões de mata.

Nas vertentes do sudoeste da unidade de conservação é possível encontrar florestas estacionais semideciduais. Mais ao norte encontramos a mata seca e, dependendo das diferentes profundidades do solo, podemos observar variadas formações de cerrado.

Do mirante do Arrenegado vislumbramos uma das paisagens mais impressionantes do país. Preservando um dos trechos mais importantes da Serra do Espinhaço, o parque guarda os segredos da história do planeta e apresenta peculiaridades ecológicas exemplares.

É o habitat de espécies da fauna e da flora desconhecidas, raras e ameaçadas, e garante água de qualidade para diversas comunidades e cidades. Apresenta ainda memórias de diferentes períodos da pré-história e da história, incluindo aí registros de naturalistas e cientistas como Auguste Saint-Hilaire, Martius, Spix, Gardner e Eschwege, além de histórias e memórias de um passado recente das comunidades locais.

Assim, o parque é ao mesmo tempo um patrimônio das comunidades do entorno, dos municípios próximos, e, do estado de Minas Gerais. Sendo parque nacional é patrimônio de todos os brasileiros. E, além disso tudo, o parque, como parte da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, é também uma área de relevante interesse para toda a humanidade.