Expedição ao Parque Nacional da Serra da Bodoquena

Autor: Carlos Sanches

 

Saindo do Aeroporto de Campo Grande numa van de linha, após 4 horas de viagem e quase 300 km, passando pela bela Serra de Maracaju (hoje um Monumento Natural Municipal), chegamos à Bonito.

Criado em 2000, o Parque Nacional da Serra da Bodoquena protege uma área de grande singularidade geológica, com uma biodiversidade ainda não inteiramente conhecida. Possui 77.021,58 hectares divididos em dois fragmentos: um ao sul e outro ao norte. Abrange áreas de quatro municípios: Bonito, Bodoquena, Jardim e Porto Murtinho É um parque nacional de singular beleza, localizado numa das áreas cársticas contínuas mais extensas do Brasil, apresentando um labirinto de rios de cor turquesa, cânions, cachoeiras, florestas, brejos, lagoas e um sistema de cavernas inundadas.

De grande importância biológica, o parque é a única unidade de conservação de proteção integral federal localizada exclusivamente no estado do Mato Grosso do Sul. Faz parte das áreas núcleo de duas Reservas da Biosfera: a do Pantanal (2000) e a da Mata Atlântica (incluída em 2001). Também está inserida no projeto do Geoparque Pantanal Bodoquena. Tem tudo para ser um dos destinos de ecoturismo mais impressionantes do estado.

 

O primeiro dia da expedição

Na companhia de um analista ambiental do parque e grande conhecedor da unidade de conservação, saímos cedo de Bonito. Um brigadista também participou da atividade. O clima estava instável e seguimos num veículo 4X4 em direção ao fragmento norte da unidade. Para chegarmos ao parque, atravessamos um trecho da Fazenda Remanso até a Fazenda Santa Laura. A estrada muito pedregosa estava bastante ruim.

Deixamos o carro numa clareira e seguimos a pé ainda pela estrada de terra. Atravessamos um belo trecho do Rio Salobra e, através de uma pequena trilha, chegamos ao futuro balneário do mesmo rio (antiga sede da fazenda), um poço grande e belo cercado por mata.

O Rio Salobra é o principal curso d’água desse fragmento e um importante tributário do Rio Miranda, que abastece o sul do Pantanal. Nuvens cinzentas marcavam o horizonte e decidimos seguir até o futuro mirante no alto do Morro do Boi, de onde teríamos uma visão ampla de uma parte do parque. A trilha alternava trechos de capim alto (colonião) e trechos de mata seca (Floresta Estacional Decidual Submontana), numa área em processo de regeneração.

A subida é cansativa por conta do mato espinhoso, do terreno pedregoso e da declividade acentuada da trilha, que às vezes desaparecia completamente. Num determinado momento, tivemos que fazer uma pausa para esperar a passagem da chuva. O esforço é recompensado não somente pela vista exuberante, mas por conta de o Morro do Boi apresentar no seu topo um incrível campo de lapiás.

Todo o afloramento rochoso do morro e de morros adjacentes se apresenta como se houvesse sido “fatiado”, produzindo uma série de gigantescas lâminas afiadas, com sulcos profundos entre uma lâmina e outra. Esse ambiente incrível apresenta ainda uma vegetação arbustiva retorcida, muitos cactos e várias bromélias.

Os lapiás são formações típicas de relevos cársticos, produzidos através da dissolução progressiva e superficial das rochas calcárias. Tivemos a sorte de o tempo firmar lá em cima e conseguimos fazer algumas belas imagens desse lugar fantástico.

A descida foi mais rápida do que a subida e logo chegamos de volta ao Balneário do Rio Salobra. Avistamos uma capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), que desapareceu rapidamente sem que conseguíssemos registrá-la. Uma arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) passou voando baixo em velocidade. Conseguimos fotografar e gravar somente as araras-vermelhas (Ara chloropterus), muito comuns na região inteira.

Assim encerramos o primeiro dia da expedição, num parque marcado e forjado pela relação da água com a rocha, uma elevação isolada em meio a uma imensa planície, uma ilha de floresta no meio do cerrado.

O segundo dia

A relação da água com a rocha sedimentar é o que caracteriza a paisagem da Serra da Bodoquena. A água da chuva dissolve a rocha devido a reação química entre o ácido carbônico (que vem com a chuva) e o carbonato de cálcio (da pedra). Esse fenômeno permite o desenvolvimento de vários relevos cársticos típicos, como os que o parque apresenta. A palavra carste é empregada para designar áreas calcárias e dolomíticas que possuem uma aparência construída através da dissolução química ou física da própria rocha.

Segundo os geólogos, a Serra do Bodoquena já foi o fundo de um oceano. Nele foram depositadas camadas e mais camadas de organismos (recifes de coral, por exemplo) que, com o passar de milhões de anos, acabaram por formar rochas compostas por sedimentos. Com a movimentação dos continentes a aproximadamente 520 milhões de anos, o solo desse oceano foi dobrado e se transformou numa vertiginosa cadeia de montanhas. Daquele período até o presente, os processos erosivos atuaram implacavelmente sobre essa linha montanhosa, transformando-a na serra que conhecemos hoje.

Em paralelo a esse fenômeno, surgiu a bacia do pantanal, que continua se deslocando para baixo. Mas isso já é outra história.

No segundo dia, a equipe do projeto foi conduzida por outro analista ambiental, com a participação de um brigadista. Desta vez seguimos para o fragmento sul. Mais uma vez, passamos por entre fazendas e bois, chegando ao local onde será estabelecida a futura sede do parque e onde se encontram alguns dos seus mais impressionantes atrativos.

Logo que descemos do carro, tivemos a surpresa de nos deparar com uma poderosa anta macho (Tapirus terrestris) que atravessou a estrada de terra e se embrenhou no meio da mata.

Nesse ponto, um deck nos leva a conhecer o Sumidouro, um lugar no mínimo surpreendente. Nele, o Rio Perdido desagua num lago através de uma bela cachoeira e desaparece por uma caverna subaquática. O ambiente é tão impressionante que parece que foi esculpido artificialmente por um artista hollywoodiano.

O Rio Perdido corta boa parte do fragmento sul do parque criando uma série de ambientes. Em determinado trecho ele corre como um rio qualquer, mas logo depois ele desaparece e corre para debaixo da terra. Ressurge aparentemente do nada e segue adiante. Em outro ponto, ele se transforma num imenso brejo, noutros ele cria canais paralelos. Pelo caminho ele vai cortando desfiladeiros, criando cachoeiras de inusitada beleza, lagoas paradisíacos e cavernas misteriosas. Sem dúvida, é um dos rios mais criativos do Brasil. Sem um mapa, ou um guia experiente, é quase impossível segui-lo.

Depois de fotografarmos e gravarmos imagens do Sumidouro, enveredemos por uma trilha que segue literalmente por cima do rio até chegar num ponto onde ele ressurge. No caminho esse rio mágico vai se transformando e recriando as imagens que o cercam. Numa hora ele apresenta corredeiras, noutra ele segue tranquilo.

Pelo caminho avistamos várias aves e um teiú (Tupinambis merianae). Na outra margem do rio, existe uma pequena trilha. Dizem que esta trilha é muito utilizada por uma onça-pintada, que possui uma toca ali por perto e que vai ao rio beber água e se refrescar. Nós não a vimos, mas logo na chegada sentimos o odor forte de um mamífero de grande porte.

Retornamos para nos aventurar por outra faceta do rio.

No início da trilha, antes de ele cair e desaparecer no Sumidouro, o rio tem a forma de um brejo extenso com algumas lagoas. Na verdade, dizem que esse brejo é a nascente do rio. Com o barco inflável do parque, entramos nesse alagado e, mais uma vez, deparamo-nos com uma cena incrível, que, aliás, imperdoavelmente deixamos de registrar. Já dentro da água, com a câmera protegida num saco impermeável, atravessamos o brejo e depois de passar por uma touceira de capim navalha, entramos numa das lagoas citadas.

Para a nossa surpresa (e a do bicho) demos de cara com uma enorme anta nadando, provavelmente a mesma que vimos na chegada. Antes de conseguirmos tirar a câmera do saco, a anta fugiu e ficamos sem a imagem (que da memória não vai desaparecer nunca).

Nesta área de banhado do Rio Perdido se formam várias lagoas com águas cristalinas, ambiente habitado não somente pela anta, mas também pelo cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), a impressionante sucuri (Eunectes murinus), além de vários outros animais.

Mas o dia não havia acabado ainda. Seguimos para outro ponto do parque na divisa dele com uma RPPN estadual: a Reserva do Saci. Para chegarmos lá passamos por uma área de floresta bastante conservada.

Um empregado da fazenda onde fica a RPPN toma conta da reserva e mora numa casa de madeira erguida no alto, sobre troncos. Em poucos minutos, o homem nos contou pelo menos duas histórias de onça. Falou da visita de uma onça-parda (Puma concolor) que foi até a janela da casa e ficou olhando para ele (segundo ele, essa onça mora numa toca ali perto). Contou também sobre a luta de uma anta para tentar se desvencilhar do mortal ataque de uma onça-pintada (Panthera onca).

Aliás, na história, ele chegou a conversar com a onça e pediu para que ela soltasse a anta com vida, mas parece que a onça não atendeu o seu pedido.

Depois desse momento de contação de histórias, seguimos por uma pequena trilha até o Córrego Taquaral, num ponto onde é possível observar uma das mais belas cachoeiras do parque. No caminho de volta ainda conseguimos fotografar mais um casal de araras vermelhas.

O terceiro dia

Seguimos para outro ponto do Rio Perdido, 25 km abaixo do primeiro (Sumidouro-Ressurgência), numa região de difícil acesso. Após passarmos por algumas porteiras e munidos de caneleiras e GPS (além de um facão) iniciamos uma trilha que sai do fundo de uma fazenda, numa área de pasto que está agora em regeneração.

No caminho, alternávamos trechos de capim alto com áreas de floresta, até chegarmos a um dos canais do Rio Perdido. A partir daí seguimos por dentro de uma mata ciliar quase intransponível (Floresta Estacional Decidual Aluvial), composta por árvores baixas, muitos arbustos espinhosos, trepadeiras e um terreno úmido com serapilheira densa. Não havia trilha e a movimentação era extremamente lenta e difícil. Picados por marimbondos e arranhados, chegamos a um trecho onde era quase impossível prosseguir. Decidimos então seguir por um dos canais do Perdido e aí a situação melhorou bastante.

A água do rio não era gelada nem quente. Seguir por ele foi extremamente prazeroso. Encontramos até um colibri dormindo num galho no meio do rio. Após algumas centenas de metros, encontramos uma trilha e chegamos ao nosso objetivo daquele dia: o Cachoeirão do Perdido. Neste ponto o rio apresenta uma série de belíssimas cachoeiras e um lago paradisíaco.

Esse trecho do rio também é marcado pelas tufas calcárias, que apesar de estarem presentes em vários dos pontos antes visitados pela expedição, naquele lugar em especial, as tufas criaram uma paisagem muito peculiar, embora bastante frágil. Quando a água rica em carbonato de cálcio flui na atmosfera ocorre a liberação do gás carbônico. O material resultante desse processo se precipita e forma uma rocha calcária bastante porosa e quebradiça.

Essa grande presença de tufas no planalto da Bodoquena o distingue das demais áreas cársticas do Brasil, tornando-o único. Além dessa especificidade estética, as tufas são importantes para estudos climáticos, hídricos e paleontológicos, já que nelas é possível encontrar vários registros fósseis.

Esse lugar especial é cercado por uma floresta luxuriante, com árvores frondosas – uma mata considerada primária. Pena que a aproximação da chuva acabou por acelerar o nosso retorno.

Os três dias de expedição até então haviam revelado um parque muito especial, com uma importância extraordinária. A unidade de conservação (bem como toda a Serra da Bodoquena) funciona como uma grande superfície de captação e armazenamento de água das chuvas, alimentando através dos seus rios perenes (mesmo na seca) a bacia do Rio Paraguai e o Pantanal.

Além disso, o parque é morada de inúmeras espécies ameaçadas de extinção. Nas suas trilhas, tivemos a oportunidade de encontrar antas, tamanduás-bandeiras (Myrmecophaga tridactyla), quatis (Nasua nasua), cachorros do mato (Cerdocyon thous), mutum-de-penacho (Crax fasciolata), seriemas (Cariama cristata), entre outros animais.

Nas rápidas conversas com alguns empregados das fazendas, ouvimos várias histórias de onças (tanto da parda quanto da pintada). O parque é morada ainda de harpias (Harpia harpyja), queixadas (Tayassu pecari), gatos-palheiros (Leopardus colocolo), cachorros-vinagres (Speothos venaticus), entre várias outras espécies. São mais de 300 espécies de aves, quase uma centena de mamíferos, 38 de anfíbios e 25 de répteis. Com certeza, novos estudos aumentarão esses números e revelarão novos fatos e espécies ainda desconhecidas pela ciência.

O quarto dia

Na manhã seguinte, após três dias de esforço físico considerável, seguimos para um ponto fronteiriço, um lugar que serve de conexão entre o parque e a Terra Indígena Kadiwéu. Com mais de 538 mil hectares, interligando as florestas da serra, o Cerrado e o Pantanal, a TI abriga quatro aldeias, três da etnia Kadiwéu e uma da etnia Terena. De Bonito até lá são quase duas horas de viagem.

A maioria das áreas do parque é de difícil acesso, com acentuada declividade, mas abriga hoje quase vinte e sete por cento da área remanescente de florestas de todo o estado do Mato Grosso do Sul e conecta áreas naturais importantes. Como já foi dito, é uma espécie de caixa d’água e importante contribuinte hídrico para o sul do Pantanal. Abriga uma rica biodiversidade, boa parte dela ainda não estudada ou conhecida, e, apresenta um sistema de cavernas inundadas ainda pouco explorado.

Voltando ao momento final da expedição, após um longo trajeto rodoviário, olhando do alto uma planície que se perde no horizonte, marcada por esparsos e imponentes chapadões. Uma paisagem de tirar o fôlego: a fronteira da ilha de floresta da Serra da Bodoquena com o cerrado, mais um lugar deslumbrante desse pedaço impressionante do país.